Jogadoras X Preconceito
Do Brasil, para o mundo
Bate Bola
A visão de quem trabalha pelo esporte
Entre chuteiras e batons
Por Mariana Luchesi
Apesar do preconceito e da falta de apoio, o futebol feminino brasileiro sobrevive
Entre um lance aqui e uma jogada ali, uma pausa rápida para arrumar o cabelo e amarrar as chuteiras. Nas mãos, unhas pintadas e nos pés a vontade de fazer o gol. Isso tudo faze parte da rotina de muitas meninas, que deixaram o salto alto de lado para invadir os gramados.
As vésperas da Copa do Mundo, a população brasileira - que é fanática pelo futebol - vestiu a camisa da seleção e já faz suas apostas para a competição mais esperada do ano. Mas e quanto ao futebol feminino? Será que as pessoas têm noção de como é a vida das "boleiras"?
O que nem todo mundo sabe é que as mulheres também têm sua Copa do Mundo. Em agosto, as meninas do Brasil embarcam para a Argentina na disputa do Sul-Americano. As melhores equipes desta competição irão disputar, em 2007, o Mundial de futebol feminino na China. E só 15 seleções dos quatro cantos do planeta estarão presentes no torneio.
Enquanto a competição não acontece, muitas meninas mantêm uma rotina em que as viagens, treinos diários e campeonatos regionais fazem parte da batalha do cotidiano.
Há também outras situações em que a "redonda" e os campos de futebol são companheiros das meninas apenas nos momentos de lazer e descontração.
A estudante de jornalismo Denise Claudino (foto) vê no futebol uma forma de aliviar as tensões e, ao mesmo tempo, um tipo de diversão ao lado dos amigos. "Sempre gostei de esportes, de handebol à futebol. Mas continuo só na brincadeira mesmo", contou . Denise joga pelo time da Universidade Metodista.
Se para a estudante os gramados não passam de mais uma opção de lazer, para a volante Deva (foto) o futebol é coisa séria. Com um currículo invejável para qualquer homem, defendeu times como a Portuguesa e o Bauru Tênis Clube e foi escalada para vestir a camisa da seleção brasileira. A sua estréia foi em 1996, num amistoso contra a Holanda.
A atleta, que iniciou sua carreira em peladas com os familiares em 1999, teve a glória profissional quando participou da Copa do Mundo nos Estados Unidos. No ano seguinte, defendeu o Brasil durante as Copas Nike e Ouro, que também foram disputadas em território norte-americano. Atualmente, ela joga pelo São Caetano, time da grande São Paulo.
Atuando em uma equipe brasileira, e com uma rotina que envolve muitos treinamentos, Deva faz parte da lista de meninas que ainda esperam encontrar mais apoio pra o esporte dentro do país, já que o futebol é visto por muitos como um esporte masculino.
Mesmo assim, no Brasil, a presença das mulheres no futebol vem crescendo nos últimos anos, principalmente depois de conquistar a medalha de prata nas últimas Olimpíadas.
Com o bom resultado obtido por nossas jogadoras nos torneios internacionais, as inscrições de garotas nas escolinhas de futebol aumentaram. Um ponto significativo também é a maneira de como elas encaram os treinos. Muitas mostram que têm como objetivo fazer da bola e chuteira um meio de vida.
Realmente, de uns tempos pra cá, o futebol feminino ganhou novas vertentes e outras possibilidades de se firmar como um esporte também praticado pelas garotas. Com o profissionalismo, as equipes passaram a disputar campeonatos nacionais, regionais e ter algum patrocínio.
Mas ainda há pouca divulgação e o incentivo ainda esbarra na precariedade, fazendo com que o esporte caminhe a passos curtos no país. O que ajuda a vencer essas barreiras é a determinação e força de vontade que as atletas demonstram nos jogos e treinos.
E não pense que elas jogam com delicadeza e "salto-alto". Quando o apito dá início aos jogos, as atletas esquecem tudo e vão para o racha, sem medo e sem se preocupar com o esmalte ou com os cabelos. É pura paixão pelo futebol.